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domingo, 21 de abril de 2013

Minha melhor figurinha.


Hoje me lembrei com saudade do tempo em que minha maior diversão era colecionar figurinhas. Colecionava as mais diversas: de jogadores de futebol, animais exóticos, dinossauros, personagens de história em quadrinhos. Juntava cada centavo de troco que minha mãe me dava quando ia comprar alguma coisa na vendinha da esquina. Acho que ela nem entendia o porquê de tanta presteza. Se ele dizia que estava precisando de ovos pra o bolo ou cebola para o almoço, logo me habilitava, e claro, na volta, com carinha de pidão, entregava o troco como quem se despede de algo tão querido. Ela toda derretida, não resistia aos meus apelos sentimentais e me dava umas moedas. Corria para juntá-las às outras dentro de um pé de meia, pois sempre detestei os tais cofrinhos em forma de porquino, até porque era muito mais difícil de tirá-las lá de dentro. Quando contava meu pequeno tesouro e via que já era o suficiente para uns envelopes de figurinha, me desembestava eufórico para a banca de revistas do seu Zé e todo faceiro adquiria meus bens mais valiosos. Se os abria ali mesmo na rua? Evidente que não. O ritual só começaria depois que chegasse em casa e me trancasse em meu quarto. Espalhava meus álbuns e figurinhas repetidas em cima da cama e numa expectativa sem explicação abria um a um os envelopes, como se fossem bilhetes premiados de loteria. A ansiedade era inexplicável: Será que preencheria mais algum espaço vazio dos meus álbuns? Será que me frustraria com as famigeradas figuras repetidas? Ou o melhor: Será que ao abrir, bem devagarinho, se revelaria aquela figurinha raríssima que nenhum dos meus amigos tinha? Quanta saudade: Eu e minhas figurinhas éramos inseparáveis. Dentro da mochila de escola, havia uma centena delas, repetidas, prontas para serem trocadas com os colegas. Ah! Tinha também o jogo de bafo, rodas e rodas de meninos apostando suas preciosas figurinhas. Em dias bons, dava pra voltar pra casa com um montão delas. Nunca apostávamos as mais raras, as minhas estavam guardadas em uma caixa de sapato que ficava em cima do guarda-roupa. Nos finais de semana, minha casa mais parecia uma feira, era um entra e sai de amiguinhos querendo trocar suas figurinhas. Tudo era cercado de muita seriedade, regras que regiam o ritual das permutas. Figurinha repetida sem muito valor era na base de uma por uma. As mais difíceis ou aquelas que faltavam para preencher o álbum do colega variava na base de duas ou três por uma. Mas as raríssimas chegavam a valer umas vinte ou até rolava dinheiro na parada. O negócio era sério mesmo. O mais interessante era a convivência democrática entre colegas, era filho de advogado, com filho de pedreiro, carpinteiro, engenheiro... não tinha essa não: todo mundo tinha que respeitar a ética dos colecionadores mirins. Uma convivência cheia de harmonia que faria inveja a qualquer reunião diplomática da ONU. Num desse dias de muita sorte, um vizinho meu, bem pobrezinho, meu grande amigo Juca, tirou a sorte grande e abriu um envelope abençoado com uma daquelas figurinhas raríssimas que ninguém nas redondezas nem sonhava possuir. Foi um alvoroço, os mais riquinhos logo ofereceram de tudo pelo tesouro do Juca. Vinha menino de todo lado pra tentar levar a tal figurinha tão falada. Mas o Juca manteve-se firme e não trocou por nada. Na verdade ele estava curtindo a fama que conquistou na vizinhança pela sorte alcançada. Ele foi bajulado, assediado e dava pra ver na carinha dele tirando a maior onda com os mais bacanas. Confesso que até tentei usar da minha influência de melhor amigo, oferecendo uma porção de coisas, mas logo desisti. Eu também me sentia feliz pelos dias de fama que ele havia conquistado. Os dias se passaram e foi chegando o período de férias. Oba! Praia, mar, bicicleta, sorvete e novas namoradinhas de verão. Comentei com o Juca que iria viajar para o litoral durante as férias. Ele todo tristinho, perguntou se voltaria logo e ficaria uns dias no bairro para brincarmos juntos. Aquilo me cortou o coração. Sua família era extremamente pobre e ele não teria a mínima condição de passar férias como as que eu passava. Corri pro meu pai e pedi se poderia levar o Juca conosco para praia. No início ele não gostou muito da ideia, mas depois de certa insistência, cedeu. Fui eufórico dar a notícia pra meu grande amigo. Deu mais um trabalhinho pra convencer sua mãe a aceitar, mas no final tudo deu certo. Viajamos, eu, meus irmãos e o Juca. Praia: aí vamos nós! Só não sabia de um detalhe, ele nunca havia conhecido o mar. Quando chegamos, descemos do carro e fomos em direção ao mar. A cena que se seguiu é difícil de ser descrita. A cara extasiada do Juca diante do mar, seu desiquilíbrio e surpresa a cada onda que batia em seus pés era de emocionar qualquer um. Todos nós paramos e inertes só observamos este verdadeiro espetáculo de vida. O Juca se virou pra mim, enfiou a mão no bolso e tirou, toda amassadinha a figurinha que ele tanto presava e me deu. Não tive coragem de pegá-la. Mas aquela cena se transformou na minha figurinha mais valiosa. Essa eu não guardei dentro de minha caixa de sapatos, guardei no coração e não troco, não vendo e não dou pra ninguém. É só minha.