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domingo, 27 de janeiro de 2013

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Paulo Coelho

Caça


Por que é importante ler? Pergunta recorrente em qualquer encontro de escritores com estudantes. E a gente acaba desfiando um rosário de respostas prontas, um blá blá blá repetitivo, apesar de necessário. Mas hoje vou dar um exemplo prático. Estava lendo uma revista - nem era um livro - quando me deparei com uma entrevista feita com o chef Philippe Legendre, estrela da gastronomia francesa de quem nunca provei um ovo frito. Ignorante sobre quem era o cara, li. Lá pelas tantas, o repórter: "É verdade que o senhor adora caçar?" O chef: "Eu caço o silêncio. Atiro no barulho."

Bum!

Perdizes, faisões, coelhos, sei lá o quê o tal homem caça todo final de semana - e nem me interessa. O importante foi o impacto causado por aquelas duas frasezinhas curtas que pareciam um poema e que empurraram meu pensamento para além daquelas páginas, me puseram a pensar sobre minhas próprias perseguições. Caço o silêncio. Atiro no barulho. Eu idem, monsieur.

Eu caço o sossego. Atiro na tevê.

Eu caço afeto. Atiro em gente rude.

Eu caço liberdade. Atiro na patrulha.

Eu caço amigos. Atiro em fantasmas.

Eu caço o amanhã. Atiro no ontem.

Eu caço prazeres. Atiro no tédio.

Eu caço o sono. Atiro no sol.

E quando caço o sol, atiro em relógios. Acho que é isto que a leitura faz. Nos solta na floresta com uma arma na mão. Nos dá munição para atirar em tudo o que nos distrai de nós mesmos, no que nos desconcentra. O livro não permite que fiquemos sem nos escutar. A leitura faz eu mirar em mim e acertar no que eu nem sabia que também sentia e pensava. E, por outro lado, me ajuda a matar tudo o que pode haver em mim de limitante: preconceitos, idéias fixas, hipocrisias, solenidades, dores cultuadas.

Lendo, eu caço a mim e atiro em mim.

Martha Medeiros

sábado, 26 de janeiro de 2013

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

Poema de sete faces



Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.Carlos Drummond de Andrade

Carlos Fuentes- Biografia



Faz pouco tempo, Filiberto morreu afogado em Acapulco. Aconteceu na Semana Santa. Apesar de ter sido mandado embora do emprego na Secretaria, Filiberto não pôde resistir à tentação burocrática de ir, como todos os anos, à pensão alemã, comer o chucrute adocicado pelos suores da cozinha tropical, dançar o Sábado de Aleluia no La Quebrada e se sentir "gente conhecida" no escuro anonimato vespertino da praia de Hornos. Claro, já sabíamos que na sua juventude tinha nadado bem; mas agora, aos quarenta, e tão abatido como se encontrava, tentar atravessar, à meia-noite, o extenso trecho entre Caleta e a ilha da Roqueta!... Frau Müller não deixou que fosse velado, apesar de ser um freguês antigo, na pensão; pelo contrário, essa noite organizou um baile no terraço sufocado, enquanto Filiberto esperava, muito pálido dentro de sua caixa, que saísse o caminhão matutino do terminal, e passou lá, acompanhado de caixas e fardos, a primeira noite da sua nova vida. Quando cheguei, muito cedo, para cuidar do embarque do féretro, Filiberto estava embaixo de um túmulo de cocos: o motorista disse que o colocássemos rapidamente sob o toldo e o cobríssemos com lonas, para não espantar os passageiros, e que por favor não trouxéssemos azar à viagem.

Saímos de Acapulco na hora da brisa da manhã. No percurso até Tierra Colorada nasceram o calor e a luz. Enquanto comia ovos e chouriço, abri o cartapácio de Filiberto, que tinha apanhado no dia anterior, junto com outros pertences, na pensão dos Müller. Duzentos pesos. Um jornal velho da cidade de México. Volantes de loteria. A passagem de ida — só de ida? E o caderno barato, de folhas quadriculadas e capas de papel mármore.

Arrisquei-me a ler o caderno, apesar das curvas, do fedor a vômito e de um certo sentimento natural de respeito pela vida privada do meu defunto amigo. "Recordaria — sim, começava assim — nosso cotidiano labor no escritório; talvez soubesse, no final, por que foi rebaixado, esquecendo seus deveres, por que ditava ofícios sem sentido, nem número, nem "Sufrágio Efetivo Não Reeleição". Por que, enfim, foi afastado, esquecia a pensão, sem respeitar as hierarquias.

"Hoje fui acertar o assunto da minha pensão. O bacharel, amabilíssimo. Saí tão feliz que resolvi gastar cinco pesos numa confeitaria. É a mesma que freqüentávamos quando jovens e aonde agora não vou mais, porque me lembra que aos vinte anos podia me dar a mais luxos do que aos quarenta. Naquela época estávamos todos num mesmo plano, teríamos rejeitado com energia qualquer opinião pejorativa a respeito dos nossos colegas; de fato, lutávamos por aqueles que na casa eram questionados pela sua baixa extração ou falta de elegância. Eu sabia que muitos deles (talvez os mais humildes) chegariam longe e aqui, na escola, iam se forjar as amizades duradouras, em cuja companhia cursaríamos o mar bravio. Não, não foi assim. Não houve regras. Muitos dos humildes ficaram por ali, muitos chegaram acima do que podíamos prognosticar naquelas fogosas, amáveis tertúlias. Outros, que parecíamos prometer tudo, ficamos na metade do caminho, destripados num exame extracurricular, isolados por uma vala invisível dos que triunfaram e dos que nada atingiram. Enfim, hoje tornei a sentar-me nas cadeiras modernizadas — também há, como barricada de uma invasão, uma máquina de refrigerantes — e pretendi ler expedientes. Vi muitos antigos colegas, mudados, amnésicos, retocados de luz de neon, prósperos. Com a confeitaria que quase não reconhecia, com a própria cidade, tinham ido se cinzelando num ritmo diferente do meu. Não, já não me reconheciam; ou não queriam me reconhecer. No máximo — um ou dois — uma mão gorda e rápida sobre o ombro. Oi, velho, como vai! Entre eles e mim interferiam os dezoito buracos do Country Club. Disfarcei-me atrás das papeladas de oficio. Desfilaram na minha memória os anos das grandes ilusões, dos prognósticos felizes e, também, todas as omissões que impediram sua realização. Senti a angústia de não poder levar as mãos ao passado e juntar os pedaços de algum quebra-cabeça abandonado; mas a arca dos brinquedos vai sendo esquecida e, no final, quem saberá para onde foram os soldadinhos de chumbo, os cascos, as espadas de madeira? As fantasias tão queridas não passaram disso. E, no entanto, houve constância, disciplina, apego ao dever. Não era suficiente, ou sobrava? Em algumas ocasiões me assaltava a lembrança de Rilke. A grande recompensa da aventura da juventude deve ser a morte; jovens, devemos partir com todos nossos segredos. Hoje, não teria que voltar o olhar para as cidades de sal. Cinco pesos? Dois de gorjeta.

"Pepe, além da sua paixão pelo direito mercantil, gosta de teo­rizar. Ele me viu sair da catedral, e juntos nos encaminhamos para o palácio. Ele é incréu, mas isso não lhe basta; em meio quarteirão teve que fabricar uma teoria. Que se eu não fosse mexicano, não adoraria a Cristo e — Não, olha, parece evidente. Chegam os espanhóis e te propõem adorar um Deus morto feito um coágulo, com um lado ferido, cravado numa cruz. Sacrificado. Ofertado. Que coisa mais natural do que aceitar um sentimento tão próximo a todo teu cerimonial, a toda tua vida?... Imagina o contrário, que o México tivesse sido conquistado por budistas ou por maometanos. Não é concebível que nossos índios venerassem um indivíduo que morreu de indigestão. Mas um Deus a quem não basta que se sacrifiquem por ele, mas que inclusive se entrega para que lhe arranquem o coração. Caramba! Xeque-mate a Huitzilopochtli! O cristianismo, no seu sentido cálido, sangrento, de sacrifício e liturgia, se torna um prolongamento natural e novo da religião indígena. Os aspectos caridade,amor e o outro lado do rosto, no entanto, são rechaçados. E tudo no México é isso: é preciso matar os homens para poder acreditar neles.

"Pepe conhecia minha inclinação, quando jovem, por certas formas da arte indígena mexicana. Eu coleciono estatuetas, ídolos, vasos. Meus fins de semana passo em Tlaxcala ou em Teotihuacán. Talvez por isso ele goste de relacionar todas as teorias que elabora para meu consumo com esses temas. Na verdade procuro uma réplica razoável do Chac Mool há muito tempo, e hoje Pepe me informa sobre um lugar na Lagunilla onde vendem um deles em pedra e que parece ser barato. Vou no domingo.

"Um engraçadinho pintou de vermelho a água do garrafão no escritório, com a conseqüente perturbação das atividades. Fui obrigado a informar o diretor, que se limitou a rir muito. O culpado aproveitou-se da circunstância para fazer sarcasmos à minha custa o dia inteiro, todos em torno da água. Ch...

"Hoje, domingo, aproveitei para ir à Lagunilla. Encontrei Chac Mool na barraca que Pepe me indicara. Trata-se de uma peça belíssima, de tamanho natural, e apesar de o marchand me assegurar sua autenticidade, eu duvido. A pedra é corrente, mas isso não diminui a elegância da postura ou a solidez do bloco. O vendedor desleal esfregara molho de tomate na barriga do ídolo para convencer os turistas da sangrenta autenticidade da escultura.

"O transporte para casa me custou mais do que a aquisição da peça. Porém já está aqui, no momento, no porão, enquanto reorganizo meu quarto de troféus, a fim de lhe dar acolhida. Essas figuras precisam do sol vertical e fogoso; esse foi seu elemento e condição. Perde muito meu Chac Mool na escuridão do porão; ali,ela é uma simples forma agonizante, e sua expressão parece me cobrar que estou lhe negando a luz. O comerciante tinha uma lâmpada que iluminava verticalmente a escultura, recortando todas as suas arestas e proporcionando-lhe uma expressão mais amável. Vou ter que imitar seu exemplo.

"Amanheci com o encanamento de água com defeito. Incauto, deixei correr da cozinha a água, que transbordou, correu pelo chão e chegou até o porão, sem que eu percebesse. O Chac Mool resiste à umidade, mas minhas malas sofreram. Tudo isso, num dia de muito trabalho, me obrigou a chegar tarde ao escritório.

"Chegaram, por fim, para consertar o encanamento. As malas, tortas. E o Chac Mool, com lama na base.

"Acordei à uma da manhã: tinha ouvido um gemido terrível. Pensei em assalto. Só imaginação.

"Os gemidos noturnos têm continuado. Não consigo identificar a causa, estou nervoso. E, infelizmente, o encanamento voltou a dar problemas, e as chuvas que não param alagaram o porão.

"O bombeiro não aparece; estou desesperado. Do Departamento do Distrito Federal melhor nem falar. É a primeira vez que os ralos não dão conta da água das chuvas que acaba entrando no meu porão. Os gemidos pararam: vai uma coisa pela outra.

"O porão foi seco, e Chac Mool está coberto de lama. Ficou com uma aparência grotesca, porque toda a massa da escultura pare­ce agora sofrer de erisipela verde, exceto os olhos que permaneceram de pedra. Vou aproveitar o domingo para raspar o musgo. Pepe aconselhou-me mudar para um apartamento, morar num andar alto, para evitar essas tragédias aquáticas. Mas não posso deixar este casarão, com certeza é muito grande para uma pessoa só, um pouco lúgubre na sua arquitetura porfiriana. Porém é a única herança e lembrança dos meus pais. Não consigo me imaginar olhando para uma sinfonola no porão, e uma loja de decorações no térreo.

"Fui raspar o musgo do Chac Mool com uma espátula. Parecia já estar fazendo parte da pedra; foi um trabalho de mais de uma hora, e só às seis da tarde consegui acabar. Não se distinguia muito bem na penumbra; quando terminei o trabalho, toquei com a mão os contornos da pedra. Cada vez que a tocava, o bloco parecia amolecer. Não podia acreditar: já estava ficando como uma massa. Esse mercador de Lagunilla me enganou. Sua escultura pré-colombiana é de puro gesso, e a umidade vai acabar com ela. Joguei por cima uns panos; amanhã vou levá-la para o quarto de cima, antes que sofra uma deterioração total.

"Os panos caíram no chão, incrível! Voltei a apalpar o Chac Mool. Ele endureceu, mas a consistência da pedra não volta. Não quero escrever isto: há no seu torso algo parecido à textura da carne; ao apertar-lhe os braços sinto-os como se fossem de borracha, percebo que algo circula por essa figura reclinada... À noite desci novamente. Não resta nenhuma dúvida: Chac Mool tem pêlos nos braços.

"Nunca me tinha acontecido uma coisa dessas. Enrolei os as­suntos do escritório, passei uma ordem de pagamento que não estava autorizada, e o diretor teve que me chamar a atenção. Talvez até tenha sido indelicado com meus colegas. Vou ter que ver um médico, saber se é a minha imaginação ou delírio, o que é, e talvez me desfazer desse maldito Chac Mool."

Até aqui a caligrafia de Filiberto era a antiga, a que tantas vezes vi na forma, nos memorandos, larga e oval. A da entrada de 25 de agosto, no entanto, parecia escrita por uma outra pessoa. Umas vezes como de criança, separando com esforço cada letra; outras, nervosa, até se diluir no incompreensível. Passaram-se três dias sem nada, e a história continua:

"Tudo é tão natural; e logo se crê no real... mas isto é real, mais do que já foi acreditado por mim. Se é real um garrafão, e mais ainda, porque percebemos melhor sua existência, ou existir, se um gozador pinta a água de vermelho... Real e efêmero absorver o fumo do cigarro, real imagem monstruosa num espelho de circo, reais não são todos os mortos, presentes e esquecidos?... Se, por acaso, um homem atravessasse o paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que tinha estado lá, e se, ao acordar, ele encontrasse essa flor na sua mão... então, o quê?... Realidade: certo dia quebraram-na em mil pedaços, a cabeça foi para lá, a cauda para cá e nós não conhecemos mais que uma das partes soltas do seu grande corpo. Oceano livre e fictício, só real quando fica preso no rumor dum caracol marinho. Até três dias atrás, minha realidade o era até ter-se apagado hoje; era movimento reflexo, rotina, memória, cartapácio. E depois, como a terra que um dia treme para nos recordar seu poder, ou como a morte que chegará um dia, me recriminando o esquecimento de toda a vida, apresenta-se outra realidade: sabíamos que estava ali, assustadora; agora sacode-nos para se fazer viva e presente. Pensei, novamente, que se tratava de pura imaginação: o Chac Mool, mole e elegante, tinha mudado de cor numa noite; amarelo, quase dourado, parecia mostrar-me que era um deus, por enquanto frouxo, com os joelhos um pouco menos tensos que anteriormente, com o sorriso mais benévolo. E ontem, por fim, um despertar sobressaltado, com essa certeza espantosa de que há duas respirações na noite, de que na escuridão batem mais pulsos do que o próprio. Sim, ouviam-se passos na escada. Pesadelo. Voltar a dormir... Não sei quanto tempo tentei dormir. Quando voltava a abrir os olhos, ainda não tinha amanhecido. O quarto cheirava a horror, a incenso e a sangue. Com o
olhar negro, percorri a recâmara, até me fixar em dois orifícios de luz piscante, em duas flâmulas cruéis e amarelas.

"Quase sem fôlego, acendi a luz.

"Ali estava Chac Mool, erguido, sorridente, ocre, com sua barriga encarnada. Deixaram-me paralisado os dois olhinhos quase oblíquos, bem junto ao cavalete do nariz triangular. Os dentes inferiores mordiam o lábio superior, imóveis; só o brilho do panelão quadrado sobre a cabeça anormalmente volumosa, denunciava vida. Chac Mool avançou em direção à minha cama; então começou a chover."

Lembro que pelo final de agosto, Filiberto foi despedido da Secretaria, com uma recriminação pública do diretor e rumores de loucura e até de roubo. Nisso não acreditei. O que pude ver foram uns ofícios irracionais, perguntando ao oficial maior se a água podia ser cheirada, oferecendo seus serviços ao secretário de Recursos Hídricos para fazer chover no deserto. Não sabia o que pensar sobre tudo isso; achei que as chuvas, excepcionalmente fortes nesse verão, tinham enervado meu amigo. Ou que a vida naquele casarão antigo ,estava lhe provocando alguma depressão moral, com a metade dos quartos fechados e empoeirados, sem empregados nem vida familiar. As notas seguintes são de fins de setembro:

"Chac Mool consegue ser simpático quando quer... 'um glub-glub de água encantada'... Conhece histórias fantásticas sobre a monção, as chuvas equatoriais e o castigo dos desertos; cada planta sai da sua paternidade mítica: o salgueiro é sua filha transviada; os lótus, suas crianças mimadas; sua sogra, o cacto. O que não consigo suportar é o cheiro, extra-humano, que emana dessa carne que não é carne, das sandálias flamantes da velhice. Com riso estridente, Chac Mool revela como foi descoberto por Le Plongeon e colocado fisicamente em contato com homens de outros símbolos. Seu espírito viveu no cântaro e na tempestade, com naturalidade; outra coisa é sua pedra, arrancada do seu esconderijo maia no qual jazia; é artificial e cruel. Creio que Chac Mool nunca perdoará isso. Ele sabe da iminência do fato estético.

"Tive que providenciar saponáceo para ele lavar o ventre por onde o mercador, pensando ser ele asteca, passou molho ketchup. Não me pareceu gostar da minha pergunta sobre seu parentesco com Tlaloc, e, quando fica bravo, seus dentes, que já são repulsivos, se afinam e brilham. Os primeiros dias, desceu ao sótão para dormir; a partir de ontem, dorme na minha cama.

"Hoje começou a temporada da seca. Ontem, da sala onde durmo agora, ouvi os mesmos gemidos roucos do princípio, seguidos de ruídos terríveis. Subi; entreabri a porta do quarto: Chac Mool estava quebrando os abajures, os móveis; quando me viu, pulou em direção à porta com as mãos arranhadas, e apenas consegui fechar e correr para me esconder no banheiro. Pouco depois desceu, ofegante, e pediu água; deixa o dia todo as torneiras abertas, não fica um centímetro seco dentro da casa. Eu preciso dormir muito bem agasalhado, e tenho pedido a ele para não molhar mais a sala.

"Chac inundou hoje a sala. Exasperado, disse-lhe que ia devolvê-lo ao mercado de Lagunilla. Tão terrível quanto sua risadinha — horrorosamente diferente de qualquer risada de homem ou de animal­ foi a palmada que me deu, com esse seu braço carregado de pesados braceletes. Tenho que reconhecer: sou seu prisioneiro. Minha idéia original era bem diferente: eu dominaria Chac Mool, como se domina um brinquedo; era, por acaso, um prolongamento da minha segu­rança na infância; mas a infância — quem falou isso? — é o fruto comido pelos anos, e eu não tinha percebido... Pegou minhas roupas e veste a bata quando começa a lhe brotar o musgo verde. Chac Mool está acostumado a que lhe obedeçam, desde sempre e para sempre; eu, que nunca tive que mandar, só posso me dobrar diante dele. Enquanto não chover — e o seu poder mágico? — viverá colérico e irritadiço.

"Hoje decidi que de noite Chac Mool sai da casa. Sempre, ao escurecer, canta uma toada ruidosa e antiga, mais velha que próprio canto. Logo cessa. Bati várias vezes na sua porta e, como não respondesse, tive a coragem de entrar. Eu não tinha retornado ao quarto desde o dia em que a estátua tentou me agredir: está em ruínas, é ali que se concentra aquele cheiro de incenso e sangue que tem flutuado pela casa. Mas atrás da porta, há ossos de cachorros, de ratos e de gatos. Tudo isso de rouba durante a noite para se sustentar. Isso explica os latidos espantosos das madrugadas.

"Fevereiro, seco. Chac Mool vigia meus passos; tem-me obrigado a telefonar para urna pensão para que diariamente me entreguem urna marmita. Mas o dinheiro levado do escritório já está acabando. Aconteceu o inevitável: a partir do dia primeiro, desligaram a água e a luz por falta de pagamento. Mas Chac Mool desco­briu urna fonte pública a dois quarteirões daqui; todos os dias eu faço dez ou doze viagens em busca de água, e ele me observa do terraço. Diz que se eu tiver a intenção de fugir vai me fulminar: também é Deus do Raio. O que ele não imagina é que estou sabendo das suas escapulidas noturnas... Corno falta luz, vou me deitar às oito. Já deveria estar acostumado ao Chac Mool, mas faz pouco tempo, na escuridão, topei com ele na escada, senti seus braços gelados, as escamas de sua pele renovada e me deu vontade de gritar.

"Se não chove rápido, o Chac Mool vai se converter novamente em pedra. Tenho reparado que sente dificuldades para se mexer; às vezes fica encostado durante horas, paralisado, apoiado na parede e parece ser, de novo, um ídolo inerme, por mais deus da tempestade e do trovão que seja considerado. Mas esses repousos lhe proporcionam novas forças para me humilhar, me arranhar corno se pudesse arrancar de mim algum líquido da minha carne. Já não acontecem mais aqueles intervalos amáveis durante os quais me contava antigas histórias; creio perceber nele urna espécie de ressentimento concentrado. Também há outros indícios que me preocupam: os vinhos da adega estão quase acabando; Chac Mool acaricia a seda da bata; deseja urna empregada na casa, fez-me ensiná-lo a usar sabonete e loções. Há inclusive algo de velho no seu rosto que antes parecia eterno. Isto pode ser minha salvação: se Chac cai em tentações, se ele se humaniza, provavelmente todos os seus séculos de vida se acumulem num instante e ele caia fulminado pelo poder adiado do tempo. Mas também penso numa coisa terrível: o Chac não gostará que eu assista à sua queda, não aceitará uma testemunha... é possível que ele deseje me matar.

"Aproveitarei hoje a excursão noturna de Chac para fugir. Partirei para Acapulco; vamos ver o que se pode fazer para arrumar trabalho e aguardar a morte de Chac Mool; sim, está próxima; está com cabelos brancos, inchado. Eu preciso pegar sol, nadar e recuperar forças. Sobram-me quatrocentos pesos. Irei à pensão Müller, que é barata e confortável. Que Chac Mool fique dono de tudo: quero ver quanto dura sem meus baldes de água."

Aqui termina o diário de Filiberto. Não quis pensar mais na sua história; dormi até Cuernavaca. Dali para o México tentei dar coerência ao escrito, relacionar aquilo com excesso de trabalho, com alguma causa psicológica. Quando, às nove da noite, chegamos ao terminal, ainda não podia explicar-me a loucura do meu amigo, Contratei uma caminhonete para levar o féretro à casa de Filiberto,e posteriormente organizar o enterro.

Antes de conseguir introduzir a chave na fechadura, a porta se abriu. Apareceu um índio amarelo, de bata, com cachecol. Sua aparência não podia ser mais repulsiva; exalava um cheiro de perfume barato, queria cobrir as rugas com o rosto cheio de pó; tinha a boca enlameada de batom mal aplicado, e o cabelo dava a impressão de estar tingido.

— Desculpe... não sabia que Filiberto tivesse...

— Não faz mal; sei de tudo. Diga aos homens que levem o cadáver para o porão.


Carlos Fuentes, escritor mexicano nascido em 11/11/1928 no Panamá — onde seu pai era diplomata — estudou na Suíça e nos Estados Unidos. Tendo em vista a profissão de seu pai, morou em Quito, Montevidéu, Rio de Janeiro, Washington, Santiago e Buenos Aires. Na sua adolescência regressou ao México, onde se radicou até 1965. Graduado em Direito na Universidade Autônoma do México e no Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra, tendo sido delegado do México perante os organismos internacionais sediados em Genebra. Foi embaixador do México na França. Nos últimos anos, o escritor tem se dedicado a dar aulas em Princeton, Harvard, Columbia e Cambridge. É catedrático nas principais universidades da europa, doutor honoris causa pelas Universidades de Harvard, Cambridge, Essex, Miami, Chicago e outras mais. Dentre os prêmios recebidos, destacamos: Prêmio Miguel de Cervantes, Legião de Honra francesa, Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras, Prêmio à Latinidade, Prêmio Biblioteca Breve, Prêmio Rómulo Gallegos e muitos outros mais.

Alguns de seus livros de maior destaque: La región transparente; La muerte de Artemio Cruz; Cumpleãnos; Tierra nuestra; Cristóbal Nonato; Valiente mundo nuevo, El espejo enterrado; Diana o la cazadora solitaria e Inquieta Compañia.


O texto acima foi extraído do livro "Chac Mool y otros cuentos", e consta da antologia "Contos latino-americanos eternos", Editora Bom Texto - Rio de Janeiro) - 2005, pág. 97, organização e tradução de Alicia Ramal.

Literatura Mexicana

A literatura mexicana tem um importante lugar na cultura e na história do México. Faz parte da Literatura latino-americana.
No período pré-colombiano, o escritor mexicano mais conhecido foi o rei-poeta Nezahualcóyotl.
Durante o período colonial duas figuras sobressairam: Soror Juana Inés de la Cruz (1651–1695), uma freira que escreveu muitos poemas e ganhou fama pela sua defesa dos direitos das mulheres, e o dramaturgo Juan Ruiz de Alarcón.

O modernismo de língua castelhana é introduzido por José Juan Tablada, precursor de vanguardas que só irão surgir no início do século XX, com o Estridentismo.

Durante a Revolução Mexicana o mais famoso escritor foi Mariano Azuela.
Na década de 1950, Juan Rulfo produziu um romance que pode ser comparado às grandes obras da literatura universal, chamado Pedro Páramo.


Nas últimas décadas vários escritores mexicanos têm ganhado popularidade no México e fora do país. Entre eles, Octavio Paz, Salvador Elizondo e Carlos Fuentes.


No Norte do México tem crescido uma literatura própria, sobre os conflitos na fronteira com os Estados Unidos e a delinqüência. Luis Humberto Crosthwaite é um destes escritores.

O idioma Inglês


Quem são os mais populares escritores britânicos?



O dramaturgo William Shakespeare (1564 - 1616) e do romancista Charles Dickens (1812 - 1870) permanecem dois dos escritores britânicos mais famosos em todo o mundo.Além das 35 obras que serão conhecidos, Shakespeare escreveu 154 sonetos e às vezes pequenas ações realizadas suas próprias obras (é conhecido por ter representado o Espírito em "Hamlet". Seus melhores trabalhos incluem "Romeu e Julieta", "o Rei Lear "," Hamlet "e" Sonho de uma Noite de Verão ".
Dickens começou a sua carreira de escritor como jornalista e todos os seus romances foram publicados em revistas como a série. Muitas de suas obras injustiça século XIX, as instituições sociais e as desigualdades entre ricos e pobres. Seus trabalhos mais famosos incluem "Oliver Twist", "A Christmas Carol" e "David Copperfield".
Os romances de Jane Austen (1775 - 1817) é conhecido por sua sutileza de observação e ironia, junto com sua visão penetrante da vida provinciana da classe média no início do século XIX. Seus trabalhos incluem "Emma", "Orgulho e Preconceito" e "Razão e Sensibilidade" (todos recém dramatizada em cinema e televisão e aclamado pela crítica).
As irmãs Brontë , Charlotte (1816-1855), Emily (1818-1848) e Anne (1820-1849) eram três mulheres talentosos romancistas do século XIX, cujos trabalhos são considerados um clássico.Charlotte é conhecida por seu romance "Jane Eyre" e Emily para "Wuthering Heights". Os dois romances apresentam fortes, heroínas independentes.

Ficção contemporânea ilustre Muitos receberam o Prêmio Booker, atribuído anualmente ao melhor romance publicado no Reino Unido. Os romances devem ser escritos em Inglês por um cidadão do Reino Unido, a Commonwealth ou da República da Irlanda.
O vencedor do Booker Prize 1999 foi JM Coetzee para 'Desonra' seu romance.
Bernice Rubens é um escritor galês-judeu que cresceu em Cardiff contemporânea. Ele recebeu muitos prêmios por seus romances.
James Kelman é um escritor escocês líder contemporâneo cujos escritos eco das rimas dialeto Glasgow.
No momento, o grande livro lido por jovens de todo o mundo é a saga de Harry Potter, a história de um menino bruxo criado por JK Rowling romancista.
Um dos poetas mais populares ingleses é notável porque seu trabalho tem sido transcritas, publicado, lido e comentado continuamente desde sua morte. Não é porque você viveu mais de 600 anos atrás é surpreendente. Ele é Geoffrey Chaucer (1345-1400). Seu melhor trabalho é "As Lendas de Canterbury", uma coleção de histórias sobre um grupo de peregrinos que se dirigiam ao santuário de São Thomas Becket em Canterbury. Chaucer foi enterrado na Abadia de Westminster.
Outro poeta popular contemporânea Seamus Heaney nasceu na Irlanda do Norte. Seus primeiros poemas refletem a vida rural e trabalho pode ser encontrado em irlandês e da coleção "Morte de um naturista" (1966) e "invernantes Out" (1972). Sua linguagem é muitas vezes pesado, fazendo uso do conjunto de consoantes e monossílabos.

Biografia de Rousseau (1712-1778)



"Newton do mundo moral" (Kant), um dos precursores da Revolução Francesa, Jean Jacques Rousseau, alheio à ideia de progresso no século do Iluminismo, defende a tese oposta: o homem nasceu bom, mas as ciências e a desigualdade o distanciaram desse estado natural.

Oriundo de uma família huguenote francesa de relojoeiros instalada em Genebra, órfão de mãe, criado por um pastor, tornando-se muito cedo aprendiz em uma gravador, Rousseau deixa Genebra para se aventurar pelo mundo em 1728. Sucessivamente lacaio, seminarista e professor de música, instala-se na propriedade de Charmettes, em Chambéry, residência da Sra de Warens (1732-1740), depois viaja a Paris (1741) onde compõe uma ópera, conhece Voltaire e Diderot e escreve sobre a música para a Enciclopédia.

Sua obra Discurso sobre as ciências e as artes (1751), que vai de encontro à opinião geral, torna-o famoso (1751). Seu próximo livro, Discurso sobre a origem da desigualdade entre os Homens (1755), questiona a propriedade. Resposta ao artigo Genebra, de Alembert, sua Carta a Alembert sobre os espetáculos, um apelo contra o teatro, faz com que se desentenda com os enciclopedistas. Depois dessa carta, publica suas três obras-primas: o romance A nova Heloísa, Do Contrato Social, cuja ambição é servir de base para a criação de um direito político que garanta a todos a liberdade e a igualdade, e seu tratado Emílio, ou da Educação. Com As Confissões e Os devaneios de um caminhante solitário, obras póstumas, Rousseau cria o gênero literário autobiográfico.

Os Caminhos de Santiago de Compostela em França



Para chegar a Espanha, os peregrinos de Santiago de Compostela podem seguir quatro itinerários que atravessam França. Nestas vias históricas foram construídos numerosos monumentos para acolher os peregrinos; caminhos e edifícios constituem um dos primeiros itinerários culturais europeus reconhecidos pelo Conselho da Europa, em 1987, estando inscritos como património mundial da Unesco desde 1998.
Na Idade Média, um grande número de peregrinos católicos vindos de toda a Europa encontram-se no célebre santuário de Compostela, situado na extremidade ocidental da Península Ibérica, na Galícia, com o intuito de venerar o relicário do apóstolo Santiago.
Os quatro caminhos
Para chegar ao santuário, são numerosos os peregrinos que atravessam França. “As necessidades espirituais e físicas dos peregrinos foram satisfeitas graças à criação de um certo número de edifícios especializados, em que muitos foram criados ou posteriormente desenvolvidos sob as secções francesas”, de acordo com o sítio Web da Unesco.
Paris, Vézelay, Le Puy e Arles
As vias francesas de peregrinação, descritas no seu «guia do peregrino» por Aimeri Picaud, monge de Poitou do Séc. XII, são as de Paris, Vézelay, Le Puy e Arles. São conhecidas pelas seguintes denominações: a Via Tolosana (ou via de Toulouse, que parte de Arles), a Via Podiensis (que parte de Puy e atravessa especialmente Cahors), a Via Lemovicensis (ou via limusine, que passa por Vézelay, Perigueux…) e a Via Turonensis também denominada o “Grande Caminho” (que parte de Paris e passa por Tours, Bordeaux).
As vias de Paris, Vézelay e Puy reúnem-se no País Basco, junto aos Pirenéus e, após transpor a fronteira, formam o caminho de Navarra. Em Espanha, em Puente la Reina, a via de Arles une-se ao Caminho de Navarra para formar o Caminho francês.
Paisagens de cortar a respiração
A marcação dos caminhos francês e espanhol é efetuada com o apoio do Instituto Europeu de Itinerários Culturais.
Os caminhos permitem descobrir regiões riquíssimas, e paisagens magníficas, grandiosas e desconhecidas de França, vilas profundamente cativantes. Das quatro vias históricas, a mais antiga e a mais rica em monumentos romanos é a de Puy-en-Velay, grande local de peregrinação.
Os monumentos, a Concha de Saint-Jean-d'Angély
São numerosos os estabelecimentos de acolhimento aos peregrinos (hospitais, capelas, albergues...) e monumentos para testemunhar a sua devoção (basílicas, capelas, estátuas, frescos...) erguidos ao longo das vias; 71 deles encontram-se inscritos como património mundial.
Entre outros locais remarcáveis, a igreja de Notre-Dame du Port em Clermont-Ferrand, a abadia Sainte-Foy de Conques, a ponte sobre Lot e a igreja de Saint-Fleuret em Estaing, a abadia Saint-Pierre e o claustro de Moissac, a catedral de Puy-en-Velay, a catedral Saint-Front em Périgueux, a igreja de Saint-Sauveur e a cripta de Saint-Amadour em Rocamadour, a basílica de Saint-Sernin de Toulouse, a antiga catedral de Notre-Dame em Saint-Bertrand-de-Comminges, a abadia real de Saint-Jean-Baptiste em Saint-Jean-d'Angély…

Escritores e intelectuais

Aimé Césaire (1913-2008)Aimé Césaire
"Sou um martinicano, um africano transportado, mas antes de tudo um homem, e um homem que quer antes de tudo a realização da humanidade do homem", assim se definia Aimé Césaire. Nascido numa família numerosa em Basse Pointe, aluno brilhante do liceu Schœlcher de Fort-de-France, Césaire desembarcou em 1931 em Paris, no liceu Louis-Le-Grand, onde conheceu Léopold Sédar Senghor e reencontrou seu amigo guianense Léon Gontran Damas. Foi na revista L'Étudiant noir, fundada conjuntamente pelos três (1934), que ele forjou o conceito de "Negritude". Aprovado na École Normale Supérieure em 1935, escreveu num caderno de estudante a sua principal obra poética, o Caderno de um retorno ao país natal, 1939, que só seria publicado depois da guerra.

Já como agrégé, de volta à Martinica com Suzanne Roussi, com quem acabara de casar, fundou com ela, em 1941, a revista Tropiques, censurada em 1943 pelo regime de Vichy. De passagem pela ilha em 1941, André Breton prefaciaria a coletânea As Armas milagrosas que assinalou a adesão do poeta ao surrealismo (1946). Comunista na época, prefeito de Fort-de-France em 1945, deputado em 1946, Césaire criou Présence africaine, primeiro revista, depois editora, em que publicou seu Discurso sobre o colonialismo, 1953. Depois de sua Carta a Maurice Thorez, que consumou a ruptura com o Partido Comunista, em março de 1958, criou o Partido Progressista Martinicano. Paralelamente ao combate político (deputado durante 48 anos, prefeito de Fort de France durante 56 anos), Aimé Césaire escreveria mais de catorze obras, coletâneas de poesia, peças de teatro e ensaios.


La Fontaine (1621 – 1695)
La Fontaine (1621 – 1695)
Nascido em Château-Thierry no dia 8 de julho de 1621, noviço da Ordem do Oratório aos vinte anos, casado e pai de família aos vinte e seis, quando Jean de La Fontaine herda do pai o cargo de administrador das Águas e Florestas, em 1658, só a literatura lhe interessa. Introduzido em 1657 no círculo de Fouquet, superintendente das Finanças no auge do poder, torna-se seu poeta favorito, encontra Molière, Racine e Madame de Sévigné. Em 1661, porém, Fouquet cai em desgraça e La Fontaine, que permanece fiel a ele (Élégie aux nymphes de Vaux [Elegia às ninfas de vaux]) perde toda proteção. Ao voltar a Château-Thierry, a duquesa de Bouillon, sobrinha de Mazarin que veio morar na cidade, pede-lhe que a distraia. Entre 1664 e 1667 aparecem assim vinte e sete Contes et Nouvelles en vers [Contos e Novelas em Versos] que dão a La Fontaine a reputação de autor libertino e elegante. Para obter perdão por seus "textos frívolos", publica então sua primeira coletânea de Fábulas, dividida em seis livros, precedida de uma Vie d'Ésope [Vida de Esopo], em 1668. A coletãnea obtém um sucesso imediato, mas sem que La Fontaine consiga uma pensão do rei. Os Nouveaux Contes [Novos Contos], publicados em 1674, são proibidos. Sem recursos, La Fontaine vende a casa paterna. Os livros VII a XII das Fábulas aparecem em 1678-1679. Admitido, enfim, na Academia Francesa em 1684, para a cadeira de Colbert, La Fontaine pronuncia o seu elogio. Em 1693, a publicação do livro XII das Fábulas se encerra com o poema Le Juge arbitre, l'Hospitalier et le Solitaire [O juiz árbitro, o hospitalário e o solitário] que é também o seu testamento. Falece em 13 de abril de 1695.