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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Dor como Padrão para a Intensidade dos Sentidos


Normalmente, a ausência de dor é apenas
 a condição física necessária para que o indivíduo
 sinta o mundo; somente quando o corpo não está
 irritado, e devido à irritação voltado para dentro
 de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar
 normalmente e receber o que lhes é oferecido.
 A ausência de dor geralmente só é «sentida» no
 breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação
 que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista
 é a libertação da dor, e não a sua ausência. 
A intensidade de tal sensação é indubitável;
 na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la.


Hannah Arendt, in 'A Condição Humana

A Ingenuidade Ignorante e a Ingenuidade Sábia

Há duas espécies de ingenuidade: uma que ainda não
 percebeu todos os problemas e ainda não bateu a todas
 as portas do conhecimento; e outra, de uma espécie mais
 elevada, que resulta da filosofia que, tendo olhado dentro
 de todos os problemas e procurado orientação em todas as
 esferas do conhecimento, chegou à conclusão de que não podemos
 explicar nada, mas temos de seguir as convicções cujo valor inerente
 nos fala de maneira irresístivel.

Albert Schweitzer

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“O Mapa”


Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

“Ao Longo Das Janelas Mortas”


Ao longo das janelas mortas

Meu passo bate as calçadas.

Que estranho bate!…Será

Que a minha perna é de pau?

Ah, que esta vida é automática!

Estou exausto da gravitação dos astros!

Vou dar um tiro neste poema horrivel!

Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso

[Senhor, as prostitutas, os mortos!

Venham ver a minha degradação,

A minha sede insaciável de não sei o quê,

As minhas rugas.

Tombai, estrelas de conta,

Lua falsa de papelão,

Manto bordado do céu!

Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa

Esta carcaça miserável de sonho…

POSTAL


deste lado da ilha

o cais e a cidade velha

datam de muito tempo,

mas a cidade é um poema



não cresceu. é sempre a mesma.

todos os dias igual:



o mesmo outeiro da cruz

desterro, fontes e fortes

igrejas, lendas, sobrados

estreitas ruas, mirantes

portões, sacadas de ferro

poetas, becos, telhados

serestas, maledicência

saveiros, pregões de rua

cantaria, mal-amados

rios (chão, templo e canteiros)

de peixe e palafitados)

ladeiras, moças bonitas

recato e amor nas janelas

casarões azulejados.



cidade em traje a rigor

vestida à colonial

meu mundo, meu porta-jóias

meu bem, meu cartão postal.



brisa de maré vazante

sem similar no país.

quietude pousada na água

caminhos feitos de história.



gente vem ver São Luís!

SONETO À LIBERDADE



Primeiro tu virás, depois a tarde

com terras, mares, algas, vento, peixes.

trarás, no ventre, a marca das idades

e a inquietude dos pássaros libertos.



virás para o enorme do silêncio

— flor boiando na órbita das águas —

tu não verás o fúnebre das horas

nem o canto final do sol poente.



primeiro tu virás, depois a tarde

sem desejos e amor. virás sozinha

como o nome saudade. virás única.



eu não terei a posse do teu corpo

nem me batizarei na tua essência,

mas tu virás primeiro e eu morro livre.

CAIS

Nunca parti deste cais

e tenho o mundo na mão!

Para mim nunca é demais

responder sim

cinquenta vezes a cada não.



Por cada barco que me negou

cinquenta partem por mim

e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!



Mundo pequeno para quem ficou...

A GARRAFA

Que importa o caminho

da garrafa que atirei ao mar?

Que importa o gesto que a colheu?

Que importa a mão que a tocou

— se foi a criança

ou o ladrão

ou filósofo

quem libertou a sua mensagem

e a leu para si ou para os outros.



Que se destrua contra os recifes

eu role no areal infindável

ou volte às minhas mãos

na mesma praia erma donde a lancei

ou jamais seja vista por olhos humanos

que importa?

... se só de atirá-la às ondas vagabundas

libertei meu destino

da sua prisão?...

Manuel António dos Santos Lopes


Nasceu a 23 de Dezembro de 1907 na ilha de S. Vicente. Estudou no colégio de S. Pedro e na Escola Comercial em Coimbra. Regressou a Cabo Verde e empregou-se como telegrafista, primeiro na Italcable e, com o fecho desta companhia devido à II Guerra Mundial, passou a tesoureiro da Câmara Municipal de S. Vicente, depois empregou-se de novo como telegrafista na Western Telegraph, primeiro na ilha de S. Vicente, depois (1944) na cidade da Horta, ilha do Faial nos Açores, e por último em 1956, foi transferido para os escritórios de Carcavelos, Cascais, Portugal, onde se reformou e passou a viver. Possuí condecorações portuguesas e cabo-verdianas.


Poeta, contista, romancista e ensaísta, tem participado ao longo dos anos em várias conferências e congressos na Europa, na África e no continente americano (como os "Colóquios Cabo-Verdianos", Lisboa, 1959, o "VI Congresso Internacional de Estudos Luso-Brasileiros", Boston e Nova Iorque, EUA, 1966, o "Claridade", Mindelo, ilha de S. Vicente, 1986 ou o "I Congresso dos Quadros Cabo-Verdianos da Diáspora", Lisboa, 1994). Foi por duas vezes laureado com o Prémio Fernão Mendes Pinto para a ficção e ainda com o do Meio Milénio do Achamento das Ilhas de Cabo Verde também para a ficção. Foi - juntamente com Jorge Barbosa e Baltasar Lopes - fundador e colaborador da revista Claridade da qual foi o primeiro director. Para além da poesia escreveu também contos e artigos de crítica social e política. Colaborou em vários jornais de Cabo Verde, dos Açores e também de Portugal continental. Cabo-Verdianos: Notícias de Cabo Verde, O Eco de Cabo Verde, Resurgimento, Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação, O Arquipélago; nos portugueses Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro onde se estreou escrevendo sonetos, Atlântico, O Mundo Português, Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Actividades, Estudos Ultramarinos, etc. Figura em várias antologias literárias como Poesia de Cabo Verde, Lisboa, 1944; Antologia da Ficção Cabo-Verdiana Contemporânea, Praia, ilha de Santiago, 1960; Modernos Poetas Caboverdianos - Antologia, Praia ilha de Santiago, 1961; Poetas e Contistas Africanos, São Paulo, Brasil, 1963; Antologia da Terra Portuguesa - Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Macau e Timor, Lisboa, s/d, (1963?).; Literatura Africana de Expressão Portuguesa, (vol.1, poesia) Argel, Argélia, 1967; Literatura Africana de Expressão Portuguesa, (vol.2, poesia) Argel, Argélia, 1968; La Poésie Africaine de Expression Portugaise, Paris, 1969; Contos Portugueses do Ultramar, Porto, 1969; Literatura Ultrumarina, Lisboa, 1972; No Reino de Caliban - Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa, Lisboa, 1975; Resistênca Africana - Antologia Poética, Lisboa, 1975; Antologia Temática da Poesia Africana 1 - Na Noite Grávida de Punhais, Lisboa, 1976; Contravento - Antologia Bilingue de Poesia Caboverdiana, Taunton, Massachusetts, EUA, 1982; Sonha Mamana África, São Paulo, Brasil, 1988; Cinquenta Poetas Africanos, Lisboa, 1989; No Ritmo dos Tantãs, Brasília, Brasil, 1991; etc.



Publicou: Paúl - Descrição de um Vale, Mindelo, ilha de S. Vicente, 1932, impressa na Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda. 29 p. (crónica de viagem); Evocação Faialense (folheto), Horta, Açores, 1948; Poemas de Quem Ficou, Angra do Heroísmo, Açores, 1949, 82 p.; Temas Cabo-verdianos, Lisboa, 1950 (e); Os Meios Pequenos e a Cultura, Horta, Açores, 1951, 56 p. (e); Chuva Braba, Lisboa, 1956, Instituto de Cultura e Fomento de Cabo Verde, 310 p. (r); O Galo que Cantou na Baía, Lisboa, 1959, edição Orion, 224 p. (c); Os Flagelados do Vento Leste, Lisboa, 1959, edição Ulisséia, 268 p. (r); Crioulo e Outros Poemas, Lisboa, 1964, edição do autor, 93 p. (p).

Os seus romances encontram-se traduzidos para o russo e francês e de Os Flagelados do Vento Leste foi realizado um filme com o mesmo título pelo realizador português António Faria. A sua vida e obra têm sido objectos de estudos e ensaios de que realçamos: Manuel Lopes. Um Itinerário Iniciático, Praia, ilha de Santiago, 1995, Instituto Cabo-verdiano do Livro, por Marie-Christine Hanras; Simbologia Telúrico-Marítima na Obra de Manuel Lopes, Évora, Portugal, 1996, Pendor Editorial, por José-Augusto França.

João Nobre de Oliveira
"A Imprensa Cabo-verdiana 1820-1975" edicão Fundação Macau, Setembro de 1998

Algumas Obras de Manuel Lopes



Manuel Lopes nasceu em São Vicente, em 1907. A obra de Manuel Lopes estende-se pelo romance, conto e ensaio.

Chuva Braba, foi o seu primeiro romance, datado de 1956, que recebeu o Prémio Fernão Mendes Pinto, tendo igualmente recebido, em 1959, o Prémio Meio Milénio do Achamento das Ilhas de Cabo Verde com o romance Os Flagelos do Vento Leste, posteriormente adaptado ao cinema e no mesmo ano novamente o Prémio Fernão Mendes Pinto com a obra O Galo Que Cantou na Baía (e outros contos cabo-verdianos).

Manuel Lopes é um dos escritores mais conhecidos de Cabo Verde, utiliza nas suas obras expressões em crioulo, embora escreva os seus textos em português. A sua obra estende-se pela poesia, ensaio, romance e conto, dedicando-se também à pintura.

Colaborou com produções suas em diversas publicações, nomeadamente Claridade, Atlântico, Notícias de Cabo Verde, Renascimento, entre outras. Foi co-fundador da revista Claridade, em 1936. Encontra-se também representado em diversas antologias.