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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Vivemos Presos ao Nosso Passado e ao Nosso Futuro


A nós ligam-nos o nosso passado e o nosso futuro.
 Passamos quase todo o nosso tempo livre 
e também quanto do nosso tempo de trabalho
 a deixá-los subir e descer na balança.
 O que o futuro excede em dimensão, substitui
 o passado em peso, e no fim não se distinguem os dois,
 a meninice torna-se clara mais tarde, tal como é o futuro,
 e o fim do futuro já é de facto vivido em todos os nossos suspiros e
 assim se torna passado.
 Assim quase se fecha este círculo em cujo rebordo andamos.
 Bem, este círculo pertence-nos de facto, mas só nos pertence
 enquanto nos mantivermos nele; se nos afastarmos para o 
lado uma vez que seja, por distracção, por esquecimento,
 por susto, por espanto, por cansaço, eis que já o perdemos no espaço;
 até agora tínhamos tido o nariz metido na corrente do tempo,
 agora retrocedemos, ex-nadadores, caminhantes actuais, e estamos perdidos.
 Estamos do lado de fora da lei, ninguém sabe disso, 
mas todos nos tratam de acordo com isso. 


Franz Kafka, in 'Diário (1910)'

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma


Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo
 dar-te quando me perguntas por que razão te amo.
 Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém.
 Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem.
 E porque me surpreendes e porque me sufocas e
 porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e
 o meu corpo de fadiga. 
E porque me confundes e porque me enfureces e
 porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho 
necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. 
Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez.
 E por todas as razões que sei e pelas que não sei e
 por aquelas que nunca virei a conhecer. 
E porque te conheço e porque me conheço.
 E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

A Beleza Maior é a que não se Vê


- Hoje, durante o meu passeio matinal, vi uma linda mulher... 
Meu Deus, que linda que ela era! (...)
- Sério, sr. Spinell? Descreva-ma então.
- Não, não posso! Dar-lhe-ia uma imagem imperfeita dela.
 Ao passar, mal a vi; na verdade, não a vi. 
Apercebi-me, porém, da sua sombra esfumada, e isso bastou para me excitar a imaginação e guardar dela uma imagem de beleza.
 Meu Deus, que linda imagem!
A mulher do sr. Klöterjahn sorriu.
- É essa a sua maneira de olhar para as mulheres bonitas, senhor Spinell?
- Sim, minha senhora, é; é muito melhor do que olhá-las fixamente na cara, com uma grosseira avidez da realidade, para no fim ficarmos com uma impressão falsa...

Thomas Mann, in "Tristão"

A Dor como Padrão para a Intensidade dos Sentidos


Normalmente, a ausência de dor é apenas
 a condição física necessária para que o indivíduo
 sinta o mundo; somente quando o corpo não está
 irritado, e devido à irritação voltado para dentro
 de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar
 normalmente e receber o que lhes é oferecido.
 A ausência de dor geralmente só é «sentida» no
 breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação
 que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista
 é a libertação da dor, e não a sua ausência. 
A intensidade de tal sensação é indubitável;
 na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la.


Hannah Arendt, in 'A Condição Humana

A Ingenuidade Ignorante e a Ingenuidade Sábia

Há duas espécies de ingenuidade: uma que ainda não
 percebeu todos os problemas e ainda não bateu a todas
 as portas do conhecimento; e outra, de uma espécie mais
 elevada, que resulta da filosofia que, tendo olhado dentro
 de todos os problemas e procurado orientação em todas as
 esferas do conhecimento, chegou à conclusão de que não podemos
 explicar nada, mas temos de seguir as convicções cujo valor inerente
 nos fala de maneira irresístivel.

Albert Schweitzer

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“O Mapa”


Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

“Ao Longo Das Janelas Mortas”


Ao longo das janelas mortas

Meu passo bate as calçadas.

Que estranho bate!…Será

Que a minha perna é de pau?

Ah, que esta vida é automática!

Estou exausto da gravitação dos astros!

Vou dar um tiro neste poema horrivel!

Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso

[Senhor, as prostitutas, os mortos!

Venham ver a minha degradação,

A minha sede insaciável de não sei o quê,

As minhas rugas.

Tombai, estrelas de conta,

Lua falsa de papelão,

Manto bordado do céu!

Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa

Esta carcaça miserável de sonho…

POSTAL


deste lado da ilha

o cais e a cidade velha

datam de muito tempo,

mas a cidade é um poema



não cresceu. é sempre a mesma.

todos os dias igual:



o mesmo outeiro da cruz

desterro, fontes e fortes

igrejas, lendas, sobrados

estreitas ruas, mirantes

portões, sacadas de ferro

poetas, becos, telhados

serestas, maledicência

saveiros, pregões de rua

cantaria, mal-amados

rios (chão, templo e canteiros)

de peixe e palafitados)

ladeiras, moças bonitas

recato e amor nas janelas

casarões azulejados.



cidade em traje a rigor

vestida à colonial

meu mundo, meu porta-jóias

meu bem, meu cartão postal.



brisa de maré vazante

sem similar no país.

quietude pousada na água

caminhos feitos de história.



gente vem ver São Luís!

SONETO À LIBERDADE



Primeiro tu virás, depois a tarde

com terras, mares, algas, vento, peixes.

trarás, no ventre, a marca das idades

e a inquietude dos pássaros libertos.



virás para o enorme do silêncio

— flor boiando na órbita das águas —

tu não verás o fúnebre das horas

nem o canto final do sol poente.



primeiro tu virás, depois a tarde

sem desejos e amor. virás sozinha

como o nome saudade. virás única.



eu não terei a posse do teu corpo

nem me batizarei na tua essência,

mas tu virás primeiro e eu morro livre.

CAIS

Nunca parti deste cais

e tenho o mundo na mão!

Para mim nunca é demais

responder sim

cinquenta vezes a cada não.



Por cada barco que me negou

cinquenta partem por mim

e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!



Mundo pequeno para quem ficou...