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terça-feira, 4 de junho de 2013

Um poema para o engraxate


o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, "Alô, Doçura!"
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.


e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade -
a cadência animada que sempre se segue -
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.


lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou se trate do velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
"mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto."


às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
"fala que me ama", e
você não consegue.


se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.


o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeça
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.


a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.

Qual é a utilidade de um título?


eles não fazem isso
os belos morrem em chamas
comprimidos fatais, veneno de rato, uma corda com um laço
que seja…
eles, as armas descansam
das janelas se lançam
empurram para fora das órbitas os olhos
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não podem fazer isso
os belos não podem resistir
eles são borboletas
são pombas
são papagaios
eles não fazem isso
um cara desencadeia uma chama
enquanto um velho, num parque, joga damas
uma chama, uma boa chama
enquanto um velho, num parque ensolarado,
joga damas.
os belos são encontrados à margem dum quarto
picados por aranhas, por agulhas e pelo silêncio
nunca entenderemos por que eles
partiram, eram tão
belos.
eles não fazem isso,
os belos morrem jovens
e deixam os feios com suas vidas feias.
brilhante e amável: a vida, a morte e o suicídio
enquanto o homem, num parque ensolarado, joga
damas.

Tão louco quanto sempre fui



bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.


o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada


antes que a luz
se apague


bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.


algumas pessoas me dizem que sou
famoso.


o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?


sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4° andar -
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado


ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:


68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária


aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.

Foi só há pouco tempo atrás



quase amanhecendo
pássaros pretos no fio de telefone
esperando
enquanto eu como o sanduíche
esquecido de ontem
às 6 da manhã
em uma tranquila manhã de domingo.


um sapato no canto
de pé
o outro posicionado ao seu
lado.


sim, algumas vidas foram feitas para ser
desperdiçadas.

Subindo seu rio amarelo



Uma mulher contou a um homem
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu uma artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5° e a 10° sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão de minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.

Nunca olhar



esse é o segredo: nunca olhar.
"você nunca olha para as pessoas," uma namorada costumava
me dizer.
eu tinha um motivo, eu não queria ver o que estava
lá, eu me sentia melhor sem aquela
realidade.

existem milhares de exemplos do que quero dizer com
isso, mas uma vez que ambos têm muitas outras coisas para
fazer, eu apenas ilustrarei com
alguns:
dizer, se eu embarcava em um jato e eu via o primeiro piloto,
então seria um vôo muito
desconfortável
ou dizer, nas corridas de cavalo se eu olhava para quem
iria conduzir o cavalo que eu
escolhi
então eu sabia que nunca poderia
apostar naquele cavalo.
ou dizer, (e eu percebo que você pode não
compreender este) se eu visse os rostos das
vencedoras de um concurso de beleza
eu quase sempre ficava
horrorizado.
e eu sei que é uma coisa terrível de dizer, mas
quando eu via centenas de rostos em um evento
esportivo
eu me tornava tonto com
descrença.


eu pareço estar deslocado nas multidões, eu não
pertenço.

eu estou melhor sozinho assistindo meus três gatos, eles são
atos verdadeiros de
vida.

eu posso
olhar.

Os garotos da praia


apenas os jovens estão na praia.
eu tenho um corpo bom para a minha idade
pescoço e peito de touro
e poderosas pernas.
mas minhas costas são marcadas
por uma doença.
eu sinto um pouco de vergonha de minhas deformidades
e eu não estaria lá
apenas minha mulher insiste
e se ela tem a coragem de estar lá
comigo
então eu preciso ter a coragem de ir
com isso.

mas eu me pergunto onde o velho e o aleijado
e o feios estão?
as praias não deveriam ser deles também?
onde estão as pessoas de uma perna só?
os sem braços?

Eu vejo os meninos em suas pranchas
corpos finos deslizando.

alguns deles acabarão em manicômios
alguns deles vão ganhar 40 quilos
alguns deles irão cometer suicídio.

a maioria deles vão parar de vir para a
praia.

e há o sol e há a areia
e os meninos jovens aumentam as paliçadas de água
e as meninas jovens assistem eles.

eles são imprudentes e contentes.

eu me alongo
curvo meu estômago
e eles
se foram.

Dama melancólica



ela fica ali sentada
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia salvá-la?

em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.

Velho limpo



daqui a
uma semana farei
55.

sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?

meus críticos
vão adorar
quando a minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas-do-mar.

chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim

como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.


Charles Bukowski

Garotas de meia calça


estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola se foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada -
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são maçantes

as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.

circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.


Charles Bukowski