Pesquisar sobre postagens antigas do Blog

Siga o Blog, nas redes sociais

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Precisão

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Nossa Truculência

Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.

Sonhe

Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.

Rifa

Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário. Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões. Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas. Um leviano e precipitado, coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista... Um verdadeiro sonhador... Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras. Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo. Rifa-se este desequilibrado emocional que, abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente e, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções. Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: " O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer". Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente. Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo. Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina. Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.

Independência do Brasil

 

A independência do Brasil, enquanto processo histórico, desenhou-se muito tempo antes do príncipe regente Dom Pedro I proclamar o fim dos nossos laços coloniais às margens do rio Ipiranga. De fato, para entendermos como o Brasil se tornou uma nação independente, devemos perceber como as transformações políticas, econômicas e sociais inauguradas com a chegada da família da Corte Lusitana ao país abriram espaço para a possibilidade da independência.

A chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil foi episódio de grande importância para que possamos iniciar as justificativas da nossa independência. Ao pisar em solo brasileiro, Dom João VI tratou de cumprir os acordos firmados com a Inglaterra, que se comprometera em defender Portugal das tropas de Napoleão e escoltar a Corte Portuguesa ao litoral brasileiro. Por isso, mesmo antes de chegar à capital da colônia, o rei português realizou a abertura dos portos brasileiros às demais nações do mundo.

Do ponto de vista econômico, essa medida pode ser vista como um primeiro “grito de independência”, onde a colônia brasileira não mais estaria atrelada ao monopólio comercial imposto pelo antigo pacto colonial. Com tal medida, os grandes produtores agrícolas e comerciantes nacionais puderam avolumar os seus negócios e viver um tempo de prosperidade material nunca antes experimentado em toda história colonial. A liberdade já era sentida no bolso de nossas elites.

Para fora do campo da economia, podemos salientar como a reforma urbanística feita por Dom João VI promoveu um embelezamento do Rio de Janeiro até então nunca antes vivida na capital da colônia, que deixou de ser uma simples zona de exploração para ser elevada à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves. Se a medida prestigiou os novos súditos tupiniquins, logo despertou a insatisfação dos portugueses que foram deixados à mercê da administração de Lorde Protetor do exército inglês.

Essas medidas, tomadas até o ano de 1815, alimentaram um movimento de mudanças por parte das elites lusitanas, que se viam abandonadas por sua antiga autoridade política. Foi nesse contexto que uma revolução constitucionalista tomou conta dos quadros políticos portugueses em agosto de 1820. A Revolução Liberal do Porto tinha como objetivo reestruturar a soberania política portuguesa por meio de uma reforma liberal que limitaria os poderes do rei e reconduziria o Brasil à condição de colônia.

Os revolucionários lusitanos formaram uma espécie de Assembleia Nacional que ganhou o nome de “Cortes”. Nas Cortes, as principais figuras políticas lusitanas exigiam que o rei Dom João VI retornasse à terra natal para que legitimasse as transformações políticas em andamento. Temendo perder sua autoridade real, D. João saiu do Brasil em 1821 e nomeou seu filho, Dom Pedro I, como príncipe regente do Brasil.

A medida ainda foi acompanhada pelo rombo dos cofres brasileiros, o que deixou a nação em péssimas condições financeiras. Em meio às conturbações políticas que se viam contrárias às intenções políticas dos lusitanos, Dom Pedro I tratou de tomar medidas em favor da população tupiniquim. Entre suas primeiras medidas, o príncipe regente baixou os impostos e equiparou as autoridades militares nacionais às lusitanas. Naturalmente, tais ações desagradaram bastante as Cortes de Portugal.

Mediante as claras intenções de Dom Pedro, as Cortes exigiram que o príncipe retornasse para Portugal e entregasse o Brasil ao controle de uma junta administrativa formada pelas Cortes. A ameaça vinda de Portugal despertou a elite econômica brasileira para o risco que as benesses econômicas conquistadas ao longo do período joanino corriam. Dessa maneira, grandes fazendeiros e comerciantes passaram a defender a ascensão política de Dom Pedro I à líder da independência brasileira.

No final de 1821, quando as pressões das Cortes atingiram sua força máxima, os defensores da independência organizaram um grande abaixo-assinado requerendo a permanência e Dom Pedro no Brasil. A demonstração de apoio dada foi retribuída quando, em 9 de janeiro de 1822, Dom Pedro I reafirmou sua permanência no conhecido Dia do Fico. A partir desse ato público, o príncipe regente assinalou qual era seu posicionamento político.

Logo em seguida, Dom Pedro I incorporou figuras políticas pró-independência aos quadros administrativos de seu governo. Entre eles estavam José Bonifácio, grande conselheiro político de Dom Pedro e defensor de um processo de independência conservador guiado pelas mãos de um regime monárquico. Além disso, Dom Pedro I firmou uma resolução onde dizia que nenhuma ordem vinda de Portugal poderia ser adotada sem sua autorização prévia.

Essa última medida de Dom Pedro I tornou sua relação política com as Cortes praticamente insustentável. Em setembro de 1822, a assembleia lusitana enviou um novo documento para o Brasil exigindo o retorno do príncipe para Portugal sob a ameaça de invasão militar, caso a exigência não fosse imediatamente cumprida. Ao tomar conhecimento do documento, Dom Pedro I (que estava em viagem) declarou a independência do país no dia 7 de setembro de 1822, às margens do rio Ipiranga.

Por Rainer Sousa
Graduado em História

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Aposte no Prêmio Nobel de Literatura



Você já fez sua aposta para o Prêmio Nobel de Literatura? Duas semanas atrás, a casa de jogos Ladbrokes iniciou seu pregão para receber apostas no escritor que tem mais chance de levar o prêmio neste ano. Desde a abertura, o japonês Haruki Murakami desponta como favorito, seguido por Bob Dylan, Mo Yan, Cees Nooteboom, Ismail Kadare, Adonis e Ko Un.
 

Infelizmente não existe um método capaz de adivinhar com precisão o nome do ganhador, mas a opinião de jogadores mais experientes pode ajudar. Segundo dizem, um autor estreante nessa lista de apostas dificilmente ganha o Nobel. Sendo assim, o escritor chinês Mo Yan e o poeta coreano Ko Un têm poucas chances porque não constavam nos palpites do ano passado. Já Bob Dylan aparece no alto do ranking por causa dos fãs. Dificilmente ele ganharia, apesar do grande lobby em torno do seu nome – desde o começo dos anos 2000 muita gente está empenhada na indicação dele ao prêmio. De acordo com essa “lógica”, o caminho está livre para os outros cinco favoritos – tendo como fortes candidatos Murakami e Adonis (ele foi considerado vitória certa no ano passado, mas perdeu para Tomas Tranströmer; por isso, muitos acreditam que o nome dele ganhou força neste ano).

Não custa lembrar que até o anúncio oficial tudo pode mudar. Vai depender do burburinho na Academia Sueca, nos fóruns e redes sociais da internet. Outros nomes podem subir posições na lista ou um candidato desacreditado pode ficar com o prêmio. Foi assim com Mario Vargas Llosa, ganhador em 2010. Ele não aparecia entre os cinco primeiros da lista.

O anúncio oficial será feito em outubro, provavelmente na segunda semana.

***

No Brasil, fãs de Murakami estão aguardando ansiosos pelo monumental 1Q84 – mesmo que o resultado do Nobel não contemple o escritor. O romance será publicado pela Alfaguara em três volumes com tradução de Lica Hashimoto. O primeiro volume chega às livrarias em novembro e os outros dois ficam para 2013.

Rafael R., autor do blog Casmurros, participa semanalmente do Mente Aberta.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

AS ESTAÇÕES







O inverno



Coro das quatro estações:

Cantemos, irmãs, dancemos!

Espantemos a tristeza!
E dançando, celebremos

A glória da natureza!



O inverno:

Sou a estação do frio;

0 céu está sombrio,

E o sol não tem calor.

Que vento nos caminhos!

Trago a tristeza aos ninhos,

E trago a morte à flor.



Há névoa no horizonte,

No campo e sobre o monte,

No vale e sobre o mar.

Os pássaros se encolhem,

Os velhos se recolhem

À casa a tiritar.



Porém fora a tristeza!

Em breve a natureza

Dá flores ao jardim:

Abramos a janela!

Outra estação mais bela

Ja vem depois de mim.



Coro das quatro estações:



Cantemos, irmãs, dancemos!

Espantemos a tristeza!

E dançando, celebremos

A glória da natureza!





A primavera



Coro das quatro estações:



Cantemos! Fora a tristeza!

Saudemos a luz do dia:

Saudemos a natureza!

Já nos voltou a alegria!



A primavera:



Eu sou a primavera!

Está limpa a atmosfera,

E o sol brilha sem véu!

Todos os passarinhos

Já saem dos seus ninhos,

Voando pelo céu.



Há risos na cascata,

Nos lagos e na mata,

Na serra e no vergel*: *jardim, pomar

Andam os beija-flores

Pousando sobre as flores,

Sugando-lhes o mel.



Dou vida aos verdes ramos,

Dou voz aos gaturamos

E paz aos corações;

Cubro as paredes de hera;

Eu sou a primavera,

A flor das estações!



Coro das quatro estações;

Cantemos! Fora a tristeza!

Saudemos a luz do dia:

Saudemos a natureza!

Já nos voltou a alegria!





O verão



Coro das quatro estações:

Que calor, irmãs! Cantemos

Como ardem as ribanceiras

Cantemos, irmãs, dancemos,

À sombra destas mangueiras



0 verão:

Sou o verão ardente:

Que, vivo e resplendente,

Acaba de nascer;

Nas matas abrasadas,

0 fogo das queimadas

Começa a se acender.



Tudo de luz se cobre...

Dou alegria ao pobre;

Na roça a plantação

Expande-se, viceja,

Com a vinda benfazeja

Do próvido* verão. * abundante, cheio



Sou o verão fecundo!

Nasce no céu profundo

Mais rutilo o arrebol...

A vida se levanta...

A natureza canta...

Sou a estação do sol!



Coro das quatro estações:

Que calor, irmãs! Cantemos

Como ardem as ribanceiras

Cantemos, irmãs, dancemos,

À sombra destas mangueiras.





0 outono



Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos,

De tantas formas e cores!

Irmãs! Enquanto dançamos,

Saíram frutos das flores!



O outono:



Sou a sazão* mais rica: *o mesmo que estação

A árvore frutifica

Durante esta estação;

No tempo da colheita,

A gente satisfeita

Saúda a criação,



Concede a natureza

O prêmio da riqueza

Ao bom trabalhador,

E enche, contente e ufana,

De júbilo a choupana

De cada lavrador,



Vede como do galho,

Molhado inda de orvalho,

Maduro o fruto cai...

Interrompendo as danças,

Aproveitai, crianças!

Os frutos apanhai!



Coro das quatro estações:



Ha tantos frutos nos ramos,

De tantas formas e cores!

Irmãs! Enquanto dançamos,

Saíram frutos das flores!

A rã e o touro







(fábula de Esopo)



Pastava um touro enorme e forte, a beira d'água.

Vendo-o tão grande, a rã, cheia de inveja e magoa,

Disse: "Por que razão hei de ser tão pequena,

Que aos outros animais só faça nojo e pena?

Vamos! Quero ser grande! Incharei tanto, tanto,

Que, imensa, causarei às outras rãs espanto!"



Pôs-se a comer e a inchar. E ás rãs interrogava:

Já vos pareço um touro?" E inchava, inchava, inchava!

Mas em vão! Tanto inchou que, num tremendo estouro,

Rebentou e morreu, sem ficar como o touro.



Essa tola ambição da rã que quer ser forte

Muitos homens conduz ao desespero e à morte.

Gente pobre, invejando a gente que é mais rica,

Quer como ela gastar, e inda mais pobre fica:

— Gasta tudo o que tem, o que não tem consome,

E, por querer ter mais, vem a morrer de fome.

A boneca






Deixando a bola e a peteca,

Com que inda há pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.



Dizia a primeira : "É minha!"

— "É minha!" a outra gritava;



E nenhuma se continha,

Nem a boneca largava.



Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada,

E amarrotada a carinha.



Tanto puxavam por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.



E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando a bola e a peteca,

Ambas por causa da briga,

Ficaram sem a boneca...

HISTÓRIA MAL CONTADA





Quis fazer a quarta história

com rainhas bem malvadas,

princesinhas delicadas

e os nobres mais diversos.

Quis também fazê-la em versos,

bem rimada e na medida

pra ficar mais divertida

de contar pra vocês.





No início, até foi fácil:

inventei que um certo conde

escondeu, sei lá onde,

o chapéu da princesinha,

a coroa da rainha

e a peruca da duquesa,

pra depois, por malvadeza,

pôr a culpa no marquês.

(...)

vasculhei quarenta quartos

cem caixotes, mil gavetas,

cento e trinta e três saletas

e um porão empoeirado.

Tudo em vão! Desanimado,

sem poder fingir mais nada,

eu gritei: “Que palhaçada

que o maldito conde fez!”







Eu já ia desistindo,

quando tive uma surpresa:

descobri, perto da mesa,

um baú misterioso,

que eu, muito curioso,

logo vi estar trancado,

mas um pontapé bem dado

fez a coisa abrir de vez.





Achei lá uma coroa,

um chapéu, uma peruca

e – que coisa mais maluca –

um gatinho siamês,

um cachorro pequinês,

uma taça de xerez,

um boné de lã xadrez

e o coitado do marquês!






O chapéu, dei pra princesa,

A peruca, pra duquesa,

A coroa, pra rainha,

Um ossinho pro cachorro,

Uma anchova pro gatinho

E um golinho no xerez;

Pus o boné na cabeça...

E dei adeus pro marquês.